A ESTREIA PROFISSIONAL DE TYSON: OS BASTIDORES

Toda lenda tem seu início. Em 6 de março de 1985 a categoria dos Pesados nunca mais seria a mesma. Venha conferir os bastidores da estreia profissional de Tyson.
Antonio Carlos Novais
Por Antonio Carlos Novais
Antonio Carlos Novais
Por Antonio Carlos Novais

Toda lenda teve seu início.

Sabemos que a história de Tyson no boxe se inicia quando ele, então um jovem delinquente de 13 anos cumprindo pena num centro de detenção juvenil pede para que Bobby Stewart (funcionário da instituição, ex-boxeador profissional) lhe ensine como dar aqueles potentes socos com eficiência. Tyson imaginava que ao aprender a arte de boxear poderia utilizar isso em seus futuros roubos e o ajudaria a se proteger da violência das ruas.

Após algumas semanas de prática, Bobby percebendo o potencial daquele garoto resolve apresentá-lo ao lendário treinador Cus D’amato. Após ver apenas alguns minutos de Tyson dentro do ringue, Cus profetizaria: “Temos aqui o mais jovem campeão dos Pesos-Pesados”.

Sob a tutela de Cus, Tyson teve uma sólida trajetória no amadorismo, e aos 18 anos de idade (após perder a seletiva para os jogos olímpicos para Henry Tillman) era chegada a hora de realizar sua estreia no profissional.

Nessa postagem, vamos relembrar não só a luta, mas também todos os bastidores, as pessoas envolvidas e como era o panorama dos Pesados naquela época.

OS PROMOTORES

No verão de 1985, os promotores de boxe locais Bob e Lorraine Miller, um casal de Troy, norte de N.Y., foram chamados a um encontro na casa de Cus D’Amato em Catskill. Bob Miller, então com 39 anos, era uma amante de boxe a vida toda e treinador de uma dúzia de lutadores amadores e profissionais, tudo enquanto trabalhava de monitor num colégio local. Lorraine Miller, com 38 na época, e mãe de cinco filhos pequenos, tinha se tornado uma promotora licenciada para organizar eventos, já que Bob geralmente representava os lutadores participantes. Os Millers não estavam ficando ricos com o boxe, mas eles mantinham o esporte vivo naquela pequena parte do mundo, e tinham uma reputação de honestidade e profissionalismo entre os locais.

D’Amato sentou com os Millers na sala, elogiou o trabalho deles em promover pequenos eventos e perguntou se eles gostariam de promover a estreia profissional de Mike Tyson. Ele ainda não era famoso, mas era conhecido, mais conhecido no norte do estado de Nova York do que na maioria dos lugares. Já havia um burburinho no mundo do boxe de que ele seria muito melhor no boxe profissional do que amador, pela incrível velocidade das mãos e o poder dos golpes.

O LOCAL

Para a primeira luta de Tyson, os Millers escolheram o centro de convenções do Empire State Plaza, um local subterrâneo abaixo duma torre de escritórios no centro de Albany com um teatro em formato de ovo chamado, como você poderia presumir, The Egg (“O Ovo”, em inglês). Eles já tinham promovido lutas profissionais e amadoras no Plaza e Bob gostava do jeito que a disposição do local facilitava o acesso de transporte.

O ADVERSÁRIO

Hector Mercedes

D’Amato, delegou a Bob Miller a tarefa de encontrar um adversário, e Miller escalou Hector Mercedes, 19, um nativo de Porto Rico que vinha de Lowell, Massachussets.

Não se sabe muito a respeito de Héctor Mercedes. Uma consulta ao site Boxrec informa que ele teve apenas 11 lutas profissionais, com 10 derrotas e uma única vitória. Dessas 10 derrotas, 5 por nocaute. Quando enfrentou Tyson já havia realizado 3 lutas profissionais. 

O DIA E A PROMOÇÃO DA LUTA

O dia escolhido foi 6 de março de 1985. Os Millers conseguiram com que 500 pôsteres promocionais fossem impressos, com Rooney, que não apenas trabalhava com Tyson no corner, mas também faria a luta principal, aparecesse de forma mais proeminente, e Tyson numa posição secundária. D’Amato rejeitou a escolha e instruiu os Millers a imprimir pôsteres maiores com Tyson no meio. Cus disse: “Quero pessoas do outro lado da rua vendo o rosto de Mike Tyson“. Lorraine Miller então queimou alguns destes 500 originais no fogão a lenha de casa e deu para os filhos o resto para eles brincarem de giz de cera na parte de trás, decisões que ela mais tarde se arrependeria.

O novo pôster vinha escrito Tyson: estreia profissional/campeão olímpico. O nome de Hector Mercedes não aparecia em lugar algum no pôster. Ingressos foram vendidos a 10, 12 e 15 dólares.

A FILMAGEM

Você pode perceber ao assistir ao vídeo da luta, que não é uma filmagem profissional, afinal se tratava de um evento pequeno, discreto, portanto, sem transmissão para nenhuma emissora de tv. Os Millers colocaram o irmão de Lorraine, Mike Grzyboski, para filmar a estreia de Tyson, usando uma enjambrada gravadora VHS como os pais costumam usar para filmar a manhã de Natal dos filhos. Não tinha profissionalismo em nada disso. “Mike filmava todos os nossos eventos”, diz Bob Miller. 

PANORAMA DOS PESADOS NA ÉPOCA

No dia que subiu ao ringue pela primeira vez como profissional, a categoria dos pesados contava com três campeões mundiais, cada qual pela sua entidade.

Larry Holmes era o campeão pela IBF, organização recém-criada (Holmes havia abdicado do cinturão da WBC no final de 1983, por não chegar a um acordo sobre valor de bolsa e escolha de adversários) e também do cinturão da The Ring Magazine.

Greg Page era o campeão pela WBA. Ele perderia o cinturão no mês seguinte para Tony Tubbs.

Pinklon Thomas era o campeão pela WBC. (Ele perderia o cinturão um ano depois, em 22 de março para Trevor Berbick, um velho conhecido dos fãs de Tyson).

Com exceção de Greg Page, Tyson enfrentaria (e derrotaria) todos esses pugilistas citados acima.

O “FIGURINO”

Tyson se inspirava em seus ídolos do passado, sobretudo Jack Dempsey.

O figurino que Tyson utiliza em sua estreia é bem diferente daquele que nos acostumaríamos a ver e que temos na memória, em vez do short preto e sapatilhas pretas de cano curto sem meias, ele entra no ringue trajando short branco com listras vermelhas. As sapatilhas são azuis, iguais às que usava na época de amador, porém ali ele já iniciava o hábito de não usar meias. Isso era uma forma de homenagear seus ídolos do passado, que também não utilizavam. O corte de cabelo foi feito colocando uma tigela em sua cabeça e raspando ao redor para que se assemelhasse ao corte de Jack Dempsey.

A LUTA

A luta se inicia com Tyson soltando alguns jabs e diretos. Ele vai acuando Hector que após receber alguns golpes procura o clinche. Após a separação, Mercedes tenta acertar Tyson com um jab, que imediatamente contragolpeia com outro jab (praticamente um direto) que lança o porto-riquenho nas cordas, a partir daí Tyson começa a punir o rival com fortes ganchos de direita e esquerda na linha de cintura. Mercedes recua até o corner e lá se escora com uma expressão de dor, Tyson se aproxima e desfere mais alguns potentes ganchos de esquerda, Héctor então se ajoelha, não aguenta o castigo. O árbitro inicia a contagem, mas para o porto-riquenho aquilo já foi o suficiente. Encerrada a luta, um minuto e quarenta e sete segundos de duração. Essa seria a tônica da grande maioria das lutas de Tyson.

O PRÓPRIO TYSON SE RECORDA DAQUELA DIA

 “6 de março de 1965. Mercedes, certo? A gente não sabia nada sobre ele; então na manhã antes da luta, Cus ligou para alguns treinadores e donos de academia de boxe em Porto Rico para ter certeza de que o cara não seria uma caixinha de surpresas. Dirigi com Kevin e Cus, talvez outras duas pessoas da casa. Era sempre só algumas pessoas. Nós chegamos lá em Albany e eu estava com medo pra cacete. E depois a luta, magnífica. Tudo magnífico. Era tudo incrível naquele início”.

E assim se deu a estreia de um dos maiores nomes da categoria e do Boxe. Uma grande carreira, com um início modesto, mas tudo muito bem planejado.

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